quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sonho de Hipnos

Não sei se durmo ou se estarei acordado. Mas sinto-me velho. Tenho o bigode despenteado de tanto amimar a almofada e não acho a parte de cima do meu pijama geométrico. De certo que estarei dentro de um sonho. A minha realidade sonhada. Remexo a cabeça e não encontro nenhuma visão do mar. Pois o que significará o mar para mim senão uma onda de força inatingível que me deixa perplexo a cada visão sua. Rendido, ainda tentei apanhar a cabeça que entretanto se desprendeu do meu pescoço e começou a rebolar colina abaixo, até embater contra uma rocha coberta de musgo que me pareceu macia. Lembro-me do campo de tulipas que um dia hei-de visitar. Ao longe, parece um campo de malaguetas com a ponta acesa onde acendo o segundo cigarro do dia. A partitura invisível, em estado selvagem, movimenta-se em torno do meu próprio corpo, composta ora por sopros de árvores, ora por espirros de peixes ao luar. Acredito no Deus que somos todos nós, homens e corvos. Acredito naquilo que vejo e não naquilo que os olhos me dizem. Para quê olhar (pois se tudo é luz-ilusão) quando podemos ter todas as sensações depois de adormecer. Vivo ciente das ciências da natureza. Não distingo cores, formas ou consistências. Tudo consequência das sopas de cavalo cansado que me davam de comer ao pequeno-almoço. Quando comecei a salivar uma cubana de ancas largas caiu desamparada em cima de mim. Não aguentei a pressão. Tudo ficou escuro de repente, pois ela trazia uma saia que lhe chegava aos pés, de tecido grosso alaranjado. Belisco a pele frenética em busca do sentido real das coisas mas ela fica irritada e grita-me que volte a mim. Eu consinto e baixo o pescoço porque a cabeça já era!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A casa muda

Eram cinco naquela casa minúscula, doentiamente claustrofóbica, onde apenas o chão se fazia ouvir rangendo. Um deles estava preso na despensa há mais de cinco anos. Ninguém sabia dela. Mas também ninguém perguntava. “Para quê?”, ruminavam em silêncio, em longos monólogos interiores, que nunca os levavam a lado algum.
Naquele dia, o chefe de família levantou-se mais cedo em relação ao que estava acostumado. Precisava de cortar as unhas antes de sair para o trabalho. “Putas que não páram de crescer” praguejava. Virou-se para o lado e pediu à matriarca para acender a luz porque a lâmpada do candeeiro do seu lado estava fundida há séculos. Notou que estava sozinho e empalideceu. Primeiro de espanto. Depois de medo. Seria um sonho? Veio a dúvida e o patriarca chorou, chorou e chorou...
Não sabia ele que ela estava presa na despensa por opção. Sabia que ninguém se lembraria de procurá-la nas traseiras da casa, ninguém lá ia, muito menos à despensa.
Era uma família estranha que só sabia dar silêncio. Em troca, esse silêncio vinha e embatia reflectido no outro lado do espelho, e mais silêncio ainda. Ocasionalmente, a irmã dela largava um ou outro gemido em cantiga, ora quando lavava a loiça, ora quando se deitava à noite para atear fogo à flor. De resto, nem “ui!”.
Os que lá iam achavam aquela convivência disparatada de pessoas disparatadas profundamente aflitiva. Maldita casa sem voz. Lembro-me que aceitei visitá-los para me esquivar ao trabalho da parte da tarde. Mal toquei à campainha, abriram-me logo a porta sem perguntar sequer quem era. E se eu fosse algum louco varrido? E se em vez de mim estivesse à porta um gorila? Ou o meu patrão?
Mas no final daquela tarde, mesmo sem se terem feito ouvir, só posso acreditar que eles adoraram a tarte caramelizada que comprei na pastelaria em frente à minha casa. Moderna.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Ó diacho!

- Então mas conta-me lá, deste com aquilo? O marceneiro já me tinha avisado que era bastante difícil chegar lá.

- Qu’ideia!

- Ideia? Qual ideia? Talvez não tinhas nada em que pensar e o...

- Por mim... Duas cabeças nas nuvens! A olharem para baixo. Presas à força pelas suas sombras esquizofrénicas e a menina fascinada a apontar para cima.

- Hum?!

- Hum?

- Nada, esquece.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Maria

Da esquerda para a direita: a minha mãe, a minha tia, a minha avó, o meu avô e o meu pai. À frente, as minhas primas que viraram costas no momento do flash. Gosto, especialmente, da pose da minha mãe, o cabelo castanho a roçar-lhe os ombros e as mãos dadas apoiadas na barriga metida num vestido muito largo cor de salmão.
No meio, como já disse, estava a minha avó, com as duas mãos assentes na cintura, impávida e inexpressiva, talvez porque quem tirava a foto era o meu tio Mário. Mas não vou falar nisso. Quero, sim, escrever a minha avó, a sua doçura, a sua disponibilidade, a sua «matrafonice». Chamava-me de velhaca e que delícia era ouvi-la dizer isso, com tanta prontidão, com tanto afinco.
Lembro-me claramente da casa onde morava quando morreu. A porta verde, a maçaneta dourada e uma longa escadaria até lá acima, e o espelho comprido e o bengaleiro. Na cozinha, fascinava-me ver todas aquelas panelas amolgadas, arrumadas umas em cima das outras, num móvel antigo, e imediatamente me vêem à cabeça os estendidos, polvilhados com açúcar e canela, que costumava fazer quando íamos ao Rossio.
Gosto de imaginar a minha avó a dar uma tareia ao vizinho com a vassoura. O rapaz pô-la em tribunal, claro, e ela apregoava que se o apanhasse outra vez que lhe dava uma tareia ainda maior. Não vejo os mortos tão claramente como vejo a minha avó e logo me chega ao nariz o cheiro da laca que costumava comprar mais barata na galinha gorda. Todas as manhãs, empestava os cabelos pintados de castanho e o penteado lá se mantinha firme, preparado para o reboliço do seu dia. Já tinha enviuvado quando aprendeu a ler e a escrever, carregando com tanto orgulho o dossier da escola, as canetas azuis e vermelhas, as letras do abecedário que escrevia repetindo.
Houve um dia em que a minha mãe recebeu uma chamada do meu avô. Pela voz parecia bastante assustado. Contou que nessa noite a minha avó tinha saído de casa, em camisa de dormir. Com a idade, a minha avó dera em sonâmbula e isso faz-me crer que o sonambulismo é, de alguma maneira, genético.

- Estou sim? Fala da farmácia? – perguntaram do outro lado da linha.

- Não, não. A senhora deve ter-se enganado no número – respondeu a minha avó, desligando o telefone.

(o telefone tocou outra vez)

- Estou? Fala da farmácia? – perguntaram de novo, ao que a minha avó respondeu: - Não, minha senhora, isto aqui não é nenhuma farmácia, mas o que não falta aqui são remédios – e desligou.

sagrado

Acredito francamente,
Devotamente até, no «sagrado pintor»
No santo, no sacro, no sacrossanto,
Se por sagrado se entender o amor

Porque isso de cobrar favores,
Ao pobre, ao analfabeto, ao cantador,
(som dos tambores)
Não tem em si qualquer valor

No fundo, bem lá no fundo,
De nada vale o espanto do orador
Que uma vez é atraiçoado, outra é o traidor
E a dor é tanta
E o sofrimento é tanto
Oh! se tanto

a primavera que entoou no seu regaço


O amante de segunda colou-se à página do livro e manchou as palavras de Dali, «do método que o ultrapassava então», quando Helena pulou da cama para dar um risco de coca à janela, em bicos de pés, encarrapitando-se no parapeito ascendente da vida. Aspirava com o olhar o voo das aves marítimas e voava ao seu lado sem roupas e os globos oculares gotejavam tal era a pressão do ar; pusera-se nevoeiro e de repente perdeu-as de vista e caiu amortecida pelo peso do seu regaço, das suas coxas, dos seus braços, do seu ventre.
Pôs o livro de parte, provavelmente na gaveta da mesa-de-cabeceira, junto aos tampões amorfos para os ouvidos, e pensava como era bom lambuzar-lhe o comprimento, as veias, as protuberâncias laterais, com a mesma voracidade com que uma criança chupa um calipo num fim de tarde escaldante.
Helena estava deitada com uma serpente que além de lhe ter dilatado as pupilas, fê-la atirar a realidade para trás das costas e levantar voo, concentrando-se no mistério genital inflamado, nas pequenas gotas que se transformaram numa capa húmida. Brincava com a parte inferior do objecto fálico, andava à roda com ele, apressava-o ou então incentivava-o a passear pela púbis, arbúscula de pêlo. Os grandes lábios, reflectidos no espelho, adensavam e projectavam-se para fora, como a boca faminta de um peixe do rio; e a fenda delicada expandiu-se em flor, flexível à grossura do objecto vibrante.
Toda aquela agitação fez os pés da cama ranger, mas só ela pareceu não ouvir o ruído no momento em que a sua vagina sofreu uma contracção mais forte e se agarrou ao pénis falso, como fazem as raízes em terreno fértil. Desta vez, preferiu não proferir palavras ordinárias, não gemer, não gritar. Deixou que o prazer viesse ao seu encontro. Esticou-se na cama, com um dos joelhos dobrados e o braço esquerdo debaixo da almofada e, ao olhar-se ao espelho, viu a silhueta de uma mulher-estátua envolvida em pó de gesso.
O que mais lhe dava gozo depois de atingir um orgasmo era ver o corpo desintumescer, a sensação de alívio que dava o mote a longos monólogos interiores, nos quais se juntavam o pai, os irmãos e o avô numa zaragata tão grande que logo fugia para o deserto, enterrando os braços e as pernas na areia quente, tornando-se enfim uma miragem.
Apanhou o livro do chão e esticou um risco veloz na página manchada que citava: Um dia, esvaziei completamente o interior de um bocado de pão, e que pensam que coloquei no seu interior? Um pequeno Buda de bronze, cuja superfície metálica enchi de pulgas mortas. Depois, fechei a abertura do pão com um pau, cimentei tudo... de modo a formar um todo homogéneo, como se fosse uma pequena urna, no cimo da qual escrevi: Compota de cavalo. O que significava isso?




domingo, 21 de março de 2010

Tarde de Verão

Amadas as belas loucas tardes de Domingo
Que passo com ela no cúbico
É linda ela!
E gosto de como a luz não entra
E de como a escuridão não sai
Improviso algumas piadas que a façam rir
Pois gosto que ela sorria...

Ou não?

Bela é a tarde de Verão.


Gordo

Caetano (exercício)



Uma mulher de pele escura atravessou-se à sua frente, exibindo um colorido turbante no cima da cabeça. Sentiu o seu aroma e desejou possuí-la, ali mesmo, no largo do Chiado. Decerto que os transeuntes não se importariam de ver os seus corpos cantar o fado ao amanhecer. Caetano andava sempre com o cabelo arranjadinho, as unhas castanhas do surro, o fecho das calças aberto e dele uma pila a apanhar ar fresco. Adorava vê-las passear e imaginar-lhes a cona. Camões não o recriminaria, era o seu fiel companheiro, estava ali para apoiá-lo nas horas do vinho. Além disso, a seu ver, todas eram esbeltas, fossem gordas, anafadas, magras, esqueléticas. Em todas era capaz de enfiar o seu besugo e desejava-o tanto, ansiava-o tanto... Mas coitado do Caetano... morreu virgem.




Desenho do Tagas "Agarra-me"
(http://palaciodeossos.blogspot.com/)

sexta-feira, 19 de março de 2010

A carta

«Como todos sabem NÃO GOSTO QUE ME INTERROMPAM durante um discurso que considero ser eloquente... Quando me enervo não consigo impedir que os meus sentimentos fiquem completamente a nu, passando desta forma a pertencer ao domínio público. E isso dos outros de fora conhecerem-me por dentro é para mim tão tenebroso que só de pensar nisso suo abundantemente das mãos, criando enormes poças de suor à minha volta.
Sendo uma mulher celibatária e tendo criado intencionalmente raízes numa solidão desmedida, espero que aqueles com quem me cruzo não me dirijam a palavra. Fico apavorada só de pensar nos transeuntes que ostentam um ponto preto no rosto como se fossem balões presos por corpos magros.


Teresa»

sem tónica

David observava atento o piano de cauda longa, os cortinados floridos, a vasta colecção literária na estante junto ao sofá. Mas foi o quadro, no qual duas mulheres-cavalo choravam desconsoladas a morte do filho-potro, personificada por um leito castanho suspenso no ar, que lhe captou a atenção.

- Comprei-o numa loja de antiguidades em Barcelona. Gostas? – perguntou o maestro.

- É invasivo. É quase doloroso.

- Sempre que olho para ele dá-me vontade de rir. As criaturas com longos bustos e pernas musculadas. Queres beber alguma coisa, antes de subirmos?

- Aceito um gin, com gelo e limão. Sem tónica.

Reflexões sobre a moral enquanto preconceito - Friedrich Nietzsche

«A minha tarefa de preparar à humanidade um instante da mais elevada auto-reflexão, um grande meio-dia em que ela possa olhar para trás e para muito além de si, em que se subtraia à dominação do acaso e dos sacerdotes, e em que ponha pela primeira vez, como totalidade, a questão do «porquê?» e do «para quê?» - semelhante tarefa segue-se necessariamente do discernimento de que a humanidade não está no seu recto caminho, de que não é regida pela divindade, de que, pelo contrário, sob os seus mais santos conceitos de valor, imperou sedutoramente o instinto da negação, da perversão, o instindo da décadence. A questão da origem dos valores morais é, portanto, para mim uma questão de primeira importância, porque condiciona o futuro da humanidade. A exigência de que se deve acreditar que tudo, no fundo, se encontra nas melhores mãos, que um livro, a Bíblia, proporciona um definitivo apaziguamento sobre o governo divino e a sabedoria no destino da humanidade, é, reconvertida para a realidade, a vontade de não deixar surgir a verdade sobre o seu lastimoso contrário, a saber, que a humanidade esteve até agora nas piores mãos, que ela foi governada por depravados, por sedentos de astuciosa vingança, pelos chamados «santos», esse caluniadores do mundo, que desonram a humanidade. (...) Quando, no interior do organismo, o mais modesto órgão deixa de impor com plena segurança a sua auto-conservação, a sua reserva de energia, o seu «egoísmo», o todo degenera. O filósofo exige a ablação da parte degenerada, nega toda a solidariedade com o elemento degenerado, está bem longe dele ter compaixão. Mas o sacerdote quer justamente a degeneração do todo, da humanidade: por isso, conserva o degenerado - é a este preço que ele a domina... Que sentido têm estas noções enganadoras, os conceitos auxiliares de moral, «alma», «espírito», «vontade livre», «Deus», senão o de arruinarem fisiologicamente a humanidade?...»
Friedrich Nietzsche, in "Ecce Hommo", páginas 70 e 71

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ai cobras que lá foi ele




Era uma tarde de Fevereiro
Sem açucar no açucareiro
Pescavam tantas toneladas de arreiro
Chiça! Que mau cheiro alcoviteiro

Suplicou ao santo padroeiro
Para que a chuva não trouxesse o nateiro
E não lhe afogasse o pobre do carneiro
Que pasta livre as relvas do carreiro

Mas o santo padroeiro
arrieiro arteiro
ignorava-o de modo grosseiro
Pois era filho de terceiro
Pobre inútil, tornado rafeiro

E o homem dizia: «sou filho de um vendedor careiro,
Que trabalhava aos sábados no Barreiro,
Dando milho à boca do touro vareiro
E chuto tão pouco dinheiro
Por isso assassinei meu irmão, o herdeiro
Não me lembro se com uma faca ou um tiro certeiro
E ao querer fazer de mim guerreiro
Tornei-me de mim prisineiro
Só me resta pegar no isqueiro,
Algures no bolso, solteiro
E com um toque gesticular ligeiro
Acender o cigarro de um marinheiro
Que um dia me disse «sê verdadeiro»






terça-feira, 16 de março de 2010

Ouvidos de Burro

No meu mundo sedentário
Pregam espinhas aos peixes
Regem uma vida de cão
Dão asas a desleixes

No meu mundo sedentário
Convertem lesmas em ouvidos de burro
E advogam que o pão chega para todos
E que o calvário não chega ao curro

No meu mundo sedentário
Cochicham os pés do vizinho
E o corpo agrário
E a saia afoita do rapazinho

Neste mundo sedentário
Divago em terceira classe
Sem cama, nem armário
Seria louca se o ocultasse

Os Filhos Rebeldes

"Se alguém tiver um filho desobediente e rebelde, que não faz caso daquilo que o pai e a mãe lhe dizem e, mesmo quando o castigam, continua a não fazer caso, os pais devem levá-lo à presença dos anciãos daquela cidade, para lhes dizerem: "Este nosso filho é desobediente e rebelde e não faz caso das nossas ordens. Só quer comer e beber." Ele será então condenado à morte e apedrejado pelos habitantes daquela cidade. Dessa forma, acabas com aquele escândalo do meio do teu povo. Todo o povo ouvirá contar isso e ficará cheio de medo."
Passagem da Bíblia (Livro do Deuterónimo, capítulos 21 e 22, do versículo 18 ao 21)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Separar verdade e mentira é ficção?

É uma contraposição irreal. A verdade não existe. Inclusive a noção de quem somos - não que seja mentira no sentido de falsidade - é a soma de lendas, contos e das nossas respostas aos contos que, por sua vez, também são um conto...

E há a memória, outra mentira...

Até há poucos anos era fonte de especulação literária e filosófica, mas hoje é uma verdade científica: para o cérebro é o mesmo uma coisa recordada e uma coisa inventada. Em muitos casos, quase tudo o que é recordado é, senão uma invenção, pelo menos uma reinterpretação de uma recordação. Provavelmente a literatura existe por estarmos sempre a reinterpretar memórias.

Excerto de uma entrevista a Enrique de Hériz, autor do livro "Mentira"

O Abraço da Ursa Húngara

«A missa deve estar quase a começar», disse com a voz ainda oscilante. Pegou num lenço de renda preto, cobriu o cabelo e o pescoço e saiu de casa. De facto, o olhar terno e imaculado de Alenka parecia carregar consigo a ideia de um túmulo capaz de guardar os segredos mais íntimos. E ele sabia-o.
Ia tocar à campainha quando reparou que a porta estava entreaberta. «Estás aí? Posso entrar?», sussurrou. «Entra, estou no quarto», respondeu Alenka. Encontrou-a deitada no tapete de pêlo cinzelado, contorcendo o seu corpo franzino, como se o diabo tomasse as rédeas do seu corpo.
Gabor estava ainda de pé, com as calças caídas, quando Alenka lhe engoliu o tronco do pénis, simulando uma penetração comum. Lambia-o para cima e para baixo com a ponta da língua e beijava-lhe a cabeça de frade, imprimindo uma ligeira pressão com os dentes. Subitamente, Alenka abocanhou-lhe a bolsa do escroto, sugando os testículos alternadamente. As ondas eléctricas de prazer que se dispersavam, como faíscas, pelos pontos erógenos do corpo de Gabor incitaram-no a empurrar Alenka para trás e a sentar-se na borda da cama. Por pouco que não se veio. Chamou-a novamente. Acima de tudo, desejava possui-la, aconchegá-la e assim Alenka poisou as bochechas do rabo no seu colo, sentindo finalmente o pénis duro como o tronco de uma árvore beijar-lhe os lábios e trepar-lhe a vulva. Enlaçou as pernas franzinas à sua cintura, chegando-se a ele o mais possível de forma a tornar a cópula mais intensa. O abraço era activo, suplicava posse, e ela provocava-o, movendo os quadris com brutidão. Os olhos verde-água de Alenka estavam fechados, dando asas à imaginação das mãos que acariciavam aquele corpo macio, «cheio de graça». Os seus sexos pareciam soluçar, deitando lágrimas de prazer. Pareciam envoltos num duelo recíproco, ele puxando-lhe o cabelo âmbar que, como uma cortina, encobria as auréolas róseas dos seus seios, ela arranhando-lhe as costas largas e transpiradas. O tacto molhado das línguas e dos dentes parecia instigar um braço de ferro cada vez mais inquietante e os corpos fundiam-se numa espiral de sensações erógenas, rendidos à fluidez do outro, sentados no silêncio que ecoava pela casa. A temperatura subia e num impulso, o clímax estalou em infinitas pepitas de ouro.
Enquanto caminhava para a Igreja, começou a sentir o esperma escorrer-lhe lânguido pelas pernas. Dois miúdos que passavam com a mochila às costas cochicharam alguma coisa ao ouvido e desataram-se a rir. «Será que tenho a saia molhada?», questionou-se Alenka, atraiçoada pelo carmim das bochechas. Apesar do constrangimento, orgulhava-se daquela sensação de transgressão, de ousadia, de individualidade, sobretudo. Sentou-se no banco da frente, virado para o altar-mor, inclinou a cabeça e ajoelhou-se perante Deus.

sábado, 13 de março de 2010

O Escultor Argentino

Há já uma semana que não parava de chover na região de Los Andes. Os lagos e rios transbordavam o leito e isso inspirava-o quando se masturbava à janela do primeiro andar que alugava a um senhor de cabelos grisalhos, reformado dos cadernos da poesia, sempre bem acompanhado por uma bengala e um charuto pendurado no canto direito da boca.
Era uma casa discreta, simples, situada na parte norte da cidade de Chapelco. Orgulhava-se de precisar apenas de um colchão para dormir e de pratos e talheres para comer. Desprezava ostentações inúteis, como os tapetes ou os cortinados que dizia serem um capricho dos homens. Aimón admirava, sobretudo, a simplicidade da casa, a sua alvura, a luz da manhã que penetrava pela janela despida que dava para uma pequena praceta.
Era um homem solitário que raramente se entregava à volúpia e às tentações da carne. Amava as artes, particularmente a escultura que lhe transmitia sensações díspares de espiritualidade, alegria, dor e tesão. Mas sempre que, a caminho do trabalho, passava por aquela casa azul não resistia a dar uma espreitadela receosa, imaginando por instantes fazer daquele mundo clandestino, como se uma daquelas sombras voluptuosas fosse a sua própria sombra.
O escultor, como era conhecido na cidade, comia à pressa uma carbonada quando ela entrou de rompante, sacudindo o casaco ensopado, depois de pousar o chapéu-de-chuva ao lado da porta empenada. Atravessou o tasco em direcção à casa de banho e saiu tão rápido como entrou. O choque de Aimón foi instantâneo, quase voraz, ao ver entrar aquela mulher mestiça, vestida de vermelho, o cabelo entrançado a beijar-lhe o ombro. Sentiu-se inquieto e desnorteado, como se o seu peito tivesse entrado numa angulosa espiral de pressão que lhe espevitou o pau de fumo. Pensou se se atreveria a segui-la, se teria coragem. «Não», pensou de instinto mas logo foi impulsionado por uma vaga de sensações que o fizeram levantar-se da cadeira e deixar a carbonada ainda morna no prato de barro.
Ansiava saber quem era aquela mulher de pele cor de café, o que fazia e para onde iria com tanta pressa. E lá foi ele, de peito erguido, com ar sobranceiro, às vezes vacilante. Por sua vez, ela abanava as ancas prometedoramente, evidenciadas pelo vestido de malha fina que se colava à sua pele, como um filho se agarra à saia da mãe. Os peitos estavam gordos e avolumados, como dois globos que indicam o caminho para Sicília. Tinha os tornozelos inchados e a barriga era proeminente, altiva, dominante. «Deve estar no sexto mês de gestação», pensou o escultor.
Mas, a dada altura, Aimón interrompeu o passo. Estagnou ao ver a mulher de vermelho entrar na casa azul, a famosa Casa de las Putas situada parte rica da cidade. Nem queria acreditar. Questionava-se se seria o destino ou mero acaso. Depois de alguma hesitação decidiu entrar. A atmosfera exalava fumo pelas orelhas, o ambiente estava quente, a decoração fantasiosa e albergava camas que se perdiam de vista. Pediu para falar com a mulher que acabara de entrar à madame vestida com uma camisa de dormir azul translúcido, com duas mangas borboleta. A boquilha era longa, demasiado longa até, visto que a ponta do cigarro quase lhe osculava o nariz. Sem pronunciar uma palavra, a madame apontou indiferente para uma pequena divisória, deixando cair as beiças num copo largo de mojito. Aproximou-se e viu a sombra da mestiça passear-se pela parede e a acomodar-se num cadeirão de pele preta. Tinha agora o cabelo solto, crispado e negro como o carvão.
Debruçada em frente ao espelho, com uma das pernas apoiadas no braço do sofá, convidava à entrada. Apertava incessantemente os bicos de Vénus contra o outro enquanto friccionava com os dedos o alagadiço buraco da coruja. Acariciava a barriga saliente e fazia expressões libidinosas e ele, escondido na penumbra da porta, deixou escapar um gemido arquejante que ecoou pela casa. Levou de imediato a mão à boca mas era tarde demais.
«Podes entrar, se quiseres, e olhar para mim. Gosto de ter público e já vi que gostas de barrigas grandes». Aimón aproximou-se, comprometido pelo volume da bengala dobrada dentro das calças, e sentou-se à beirinha da cama. Admirava cauteloso a amazónia riça da sua púbis, os lábios anafados que protegiam o seu delicioso banco de esperma. Estava molhada e contorcia-se morosamente, dado o peso do ventre gigante. Veio-se, enfim, com um grito profundo e a tromba de elefante de Aimón cabriolou ao ver a fenda babar-se de prazer.
O corpo estava agora mais saciado. Faltava apenas acender um cigarro para que o sentimento de descontracção atingisse a sua plenitude. Mas logo notou que estava sozinha. Aimón tinha abandonado sorrateiramente o quarto e saído pelas traseiras da casa, com o zezinho molhado entre as pernas.

O Pantanal

Abri as pernas em brasa.
Vi-me camuflada. Volvi.
Numa farda engomada
Que me obrigaram a vestir
E consenti.

O aberto movimento sensual
Clítoris-flor trabalhado
Circular anal,
Pelo pau abençoado.

E a púbis vermelha da fricção
Tal era sôfrego o órgão animal
Tão bruta, violenta sensação
Sexual.

E o cheiro côncavo floral
Expelido da penetração lamaçal
Nele vi-me, canibal
Com a cara pisada, excessivo carnal

Gavetas

Se fosse fácil escrever os sentimentos que por vezes nos fazem ajoelhar, que nos fazem crer na nossa pequeneza então não estaria há mais de um ano a tentar escrever esta carta. Mas ainda acredito na constelação mais bela e harmoniosa Universo e desta também faço a minha única certeza. Porque nada desaparece, é apenas comutado, substituído. Crescem árvores novas, mas as que morreram continuam vivas se continuarmos a pensar nelas.
Ao fim de tantos anos, o espaço íntimo sublevou-se, individualizou-se, afastando consigo as possíveis errâncias que o destino cruel teima em invocar. Por conseguinte, a separação tornou-se inevitável, à luz de parêntesis obscuros, que nos fazem optar por caminhos diferentes; e nada é durável, tudo muda, tudo é foi, nada acontece, escreveu o escritor; a girafa está em chamas, assustada. «Permitirei o incêndio das chamas refulgentes no meu corpo? Ou estarei queimada antes mesmo do incêndio deflagrar?»
Daí questionar-me sobre o que é, e não é, definitivo. Quem nos comanda? O que nos garante? O futuro? Sigo em frente, meio absorta, atribulada, tropeçando aqui e ali, deixando cair cortinados alheios. Contudo, num instante sombrio, penso e olho para as minhas entranhas, revolto-me contra mim e pontapeio o meu estômago vazio. O passado atordoa-me, enjoa-me pensar que a compreensão ficou algures lá para trás. Nunca me apontou um dedo. Não havia queixas, reclamações, exigências, lamentos. Existia, sim, plena aceitação mútua, tu eras eu e sem resquícios de absorção. Se alguém travava conversa comigo, travava conversa também contigo.
Pergunto-me se de noite choravas. Eu chorei durante meses. Hoje não. Aprendi a aceitar e a compreender, mas o sentimento de angústia, esse carregarei comigo para o resto da vida. No fundo, sou cobarde, débil, irresoluta e vacilante. E pior do que ser cobarde, é sê-lo conscientemente. Talvez a vida nunca tenha feito sentido para ninguém. Por isso escrevo, escrevo muito, escrevo sem pensar no que escrevo, escrevo sem segundas intenções, sem necessidades de rodeios asneados. Não obstante, a essência estará lá, sempre, crescemos, diferenciamo-nos. Creio, talvez erroneamente, que nada mudou, que somos felizes.

quinta-feira, 11 de março de 2010

As garças

O jardim parecia envolto num nevoeiro húmido que se entranhava perversamente na pele e encobria os passos ociosos de um gato persa de pêlo azul-cobalto. Por momentos, a cauda serpenteante do animal parecia tomar a forma de um pénis astuto, sacudindo lentamente o fumo que cinzelava o rosto das duas amantes.
Escondido atrás de um biombo de cor acre, desenhado à mão, Kabir sentia uma inebriante sensação de prazer atravessar-lhe o corpo ao mirar as duas mulheres que consumiam ópio numa exuberante chaise-longue verde abacate. Os seus lábios juntavam-se em beijos sôfregos e prolongados. Dera-lhes o nome de Langa e Lien.
Começava a sentir a libido brotar dentro de si ao ver as pernas de Langa, reveladas por um diáfano quimono de seda pérola, abrirem-se delicadamente como as asas de uma garça, enquanto Lien lhe lambia demoradamente os seios redondos. O jovem mirava atento, acompanhando o movimento da mão que descia pelo ventre liso de Langa, até alcançar o clítoris. E nisto, o samba dos dedos tomou balanço, ora de cima para baixo, ora num movimento circular, apoiando-se sobre a vulva carnuda e humedecida.
Gradualmente, os néctares vaginais levemente aromatizados a citrinos intensificaram-se, foram pronunciadas palavras de volúpia, os dedos molhados de saliva escorregavam à volta dos mamilos, que respondiam enrijecendo. Um desejo carnal exasperante apoderou-se de Kabir quando Langa começou roçar o curto cabelo âmbar entre as coxas de Lien, arranhando-lhe os lábios e provocando-lhe vagas de prazer até que a tensão rebentou em mil gemidos e suspiros, conduzindo ao cume do prazer.
Kabir despertou num impulso, asfixiado. Abriu os olhos e viu-se de braços abertos, com os dedos cravados nos lençóis de cetim e as pontas dos pés curvadas. Os testículos elevaram-se, anunciando a eminência do orgasmo e o corpo, atormentado por uma pressão violenta, libertou-se numa explosão íntima de prazer. Lentamente a serenidade impôs-se e os músculos do corpo baixaram a guarda. O alívio era agora pleno.