Quando se achou vento e seguiu, Cândida corou as faces lisas. Há cerca de dois dias, cruzou-se com o Luís na rua. Sorriu-lhe, embaraçada, mesmo tendo os lábios dormentes. “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando viu o Luís, Cândida corou com o vento. Sorriu, com os lábios dormentes e “Claro!”, pensou. “Não me viu de certeza...” Quando a Cândida corou de vergonha, sorriu. E o vento levou-a. Coitada. Mesmo à beira do Luís.
O Luís, por outro lado, corou as faces tremidas e baixou a cabeça, embaraçado. “Claro!”, pensou ele. “Não me viu de certeza...”. Cruzaram-se na rua. A Cândida e o Luís. Coraram e sorriram e pensaram “Claro!”, “Não me viu de certeza...”
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
terça-feira, 7 de julho de 2009
Os dois rapazes
Possivelmente um mês antes, dois rapazes do interior tomaram conhecimento de um concurso de talentos a realizar-se na sua cidade natal. A notícia fê-los abraçar-se com ternura. No dia seguinte, ainda de madrugada, apanharam o primeiro comboio com o destino imposto. Depois de uma viagem que durou dias, numa carruagem que não permitia esticar as pernas dado o número de passageiros, os dois rapazes de mochila às costas esgueiraram-se pela porta de saída e vaguearam horas pela cidade encenando capricórnios descomplicados por natureza.
O estômago apertado incitou-os a entrar numa taberna pequena. Os cornos de javali e as cabeças de veado pendurados nas paredes gastas do estabelecimento provocaram-lhes arrepios secos que pioraram quando avistaram o senhor que estava atrás do balcão. Um vulto de pessoa desnorteante, tapada por um avental sujo e uma touca branca, exagerada para a situação. Depois de alguns segundos em silêncio, o irmão mais velho acabou por pedir dois shots de vodka. O senhor de avental acenou positivamente com a cabeça e enquanto enchia os copos gabava-se do facto de muitos terem sucumbido ao poder daquela bebida caseira. Meio aos tombos, tropeçando em pedras e fintando velhotas carregadas de sacos, os irmãos abandonaram aquela taberna inóspita e começaram a correr para a apanhar o eléctrico que passava ao fundo da avenida.
O mais novo olhou para o relógio. Tinham exactamente uma hora para chegar ao local antes que as audições fechassem. Mas no segundo antes do primeiro colocar o pé no degrau do eléctrico, ouviram-se três tiros do outro lado da rua. Todos estagnaram. O condutor, os passageiros, o chão.
(continua)
O estômago apertado incitou-os a entrar numa taberna pequena. Os cornos de javali e as cabeças de veado pendurados nas paredes gastas do estabelecimento provocaram-lhes arrepios secos que pioraram quando avistaram o senhor que estava atrás do balcão. Um vulto de pessoa desnorteante, tapada por um avental sujo e uma touca branca, exagerada para a situação. Depois de alguns segundos em silêncio, o irmão mais velho acabou por pedir dois shots de vodka. O senhor de avental acenou positivamente com a cabeça e enquanto enchia os copos gabava-se do facto de muitos terem sucumbido ao poder daquela bebida caseira. Meio aos tombos, tropeçando em pedras e fintando velhotas carregadas de sacos, os irmãos abandonaram aquela taberna inóspita e começaram a correr para a apanhar o eléctrico que passava ao fundo da avenida.
O mais novo olhou para o relógio. Tinham exactamente uma hora para chegar ao local antes que as audições fechassem. Mas no segundo antes do primeiro colocar o pé no degrau do eléctrico, ouviram-se três tiros do outro lado da rua. Todos estagnaram. O condutor, os passageiros, o chão.
(continua)
Sem apregoar nada
Tirou os óculos. Desabotoou a camisa.
Descalçou-se e permitiu que as calças caíssem no chão.
Estava agora nu à minha frente,
transparente e aparentemente lúcido.
Repeti para mim mesma que aquilo era apenas
um acto de rebeldia e que não havia razões
para me preocupar.
Enganei-me.
O rapaz, que entretanto se abraçara a um poste,
despejava conversas sem sentido que
roçavam a loucura.
Queria ser tudo, sem apregoar nada.
Amava tudo ao mesmo tempo que odiava todos.
Repentinamente, a conversa foi interrompida
pelo poste que agora era eu.
Abraçou-me com força e despediu-se.
Descalçou-se e permitiu que as calças caíssem no chão.
Estava agora nu à minha frente,
transparente e aparentemente lúcido.
Repeti para mim mesma que aquilo era apenas
um acto de rebeldia e que não havia razões
para me preocupar.
Enganei-me.
O rapaz, que entretanto se abraçara a um poste,
despejava conversas sem sentido que
roçavam a loucura.
Queria ser tudo, sem apregoar nada.
Amava tudo ao mesmo tempo que odiava todos.
Repentinamente, a conversa foi interrompida
pelo poste que agora era eu.
Abraçou-me com força e despediu-se.
O melro que abandonou as florestas para se transformar num pássaro citadino
No que diz respeito ao planeta, esta invasão do mundo do homem pelo melro é incontestavelmente mais importante do que a invasão da América do Sul pelos Espanhóis ou do que o regresso dos Judeus à Palestina. A modificação das relações entre as diversas espécies da criação (peixes, pássaros, homens, vegetais) é uma modificação de ordem mais elevada do que as mudanças nas relações entre os diferentes grupos de uma espécie. Que a Boémia seja habitada pelos celtas ou pelos Eslavos, a Bessarábia conquistada pelos Romenos ou pelos Russos, à Terra tanto lhe faz. Mas que o melro tenha traído a sua natureza original para seguir o homem no seu universo artificial e contranatura é um facto que já altera alguma coisa quanto à organização do planeta.
No entanto, ninguém ousa interpretar os dois últimos séculos como a história da invasão das cidades do homem pelo melro. Somos todos prisioneiros de uma concepção pré-estabelecida do que é importante e do que não o é, fixamos sobre o que é importante olhares ansiosos, enquanto, furtivamente, nas nossas costas, o insignificante conduz a sua guerrilha, que acabará por alterar subrepticiamente o mundo e atacar-nos de surpresa.
In O Livro do Riso e do Esquecimento, Milan Kundera
No entanto, ninguém ousa interpretar os dois últimos séculos como a história da invasão das cidades do homem pelo melro. Somos todos prisioneiros de uma concepção pré-estabelecida do que é importante e do que não o é, fixamos sobre o que é importante olhares ansiosos, enquanto, furtivamente, nas nossas costas, o insignificante conduz a sua guerrilha, que acabará por alterar subrepticiamente o mundo e atacar-nos de surpresa.
In O Livro do Riso e do Esquecimento, Milan Kundera
quinta-feira, 2 de julho de 2009
A porta
Vi um homem atordoado pelas luzes. Esperneava. Esbracejava. Inclinava a coluna contra o carro para não sentir dor. Só depois percebi que o homem estava direito, sentado em cima do carro. Sóbrio. Olhei para mim e andava à roda no parque da cidade. Via dedos gigantes atravessar pontes de vidro e galinhas feitas pardais anões.
Não! - pensei eu. Levei o dedo indicador à boca e emiti um runhido estranho, a saber a porco.Só depois percebi que estava sentada na cadeira do meu quarto. Com os pés assentes na secretária da minha imaginação que deixou de ser secretária para passar a ser mesa. E depois sofá, seguido de cama e lençol. E quando dei por mim estava transformada em bebida no centro do quarto, prestes a conhecer a vida nos tijolos que me protejem do mau tempo. Da chuva e do vento. E às vezes dos vizinhos. Gosto deles porque me dão de comer. Todos os dias, a vizinha do sexto andar traz-me as sobras do jantar. Às vezes peixe, outras carne. Nunca marisco, a forreta. Ainda assim, cumprimento-a sempre com um sorriso convincente e um forte aperto de mão. Agradeço a refeição e fecho a porta para não ser incomodada.
Não! - pensei eu. Levei o dedo indicador à boca e emiti um runhido estranho, a saber a porco.Só depois percebi que estava sentada na cadeira do meu quarto. Com os pés assentes na secretária da minha imaginação que deixou de ser secretária para passar a ser mesa. E depois sofá, seguido de cama e lençol. E quando dei por mim estava transformada em bebida no centro do quarto, prestes a conhecer a vida nos tijolos que me protejem do mau tempo. Da chuva e do vento. E às vezes dos vizinhos. Gosto deles porque me dão de comer. Todos os dias, a vizinha do sexto andar traz-me as sobras do jantar. Às vezes peixe, outras carne. Nunca marisco, a forreta. Ainda assim, cumprimento-a sempre com um sorriso convincente e um forte aperto de mão. Agradeço a refeição e fecho a porta para não ser incomodada.
O caixote do lixo
Aos homens da minha terra, escrevo e vivo sob a eterna mente de ser, estar, agir. Querer. Vejo crianças que correm para não matar o bicho que vive numa garrafa de plástico meio cheia de coisas, artimanhas. De manhã bem cedo atravesso o rio de botas e cumprimento os caixotes de lixo.
Era uma vez um caixote de lixo meio vazio de coisas, estranhas, dos outros. Deu-me os bons dias e despediu-se com um sorriso envergonhado. À sua frente, não estavam nem cadeiras nem frigoríficos antigos. Nem facas usadas, nem latrinas. O exterior cheirava a rosas (?) e pedia para ser incomodado e abraçado. As rodas traseiras estavam oleadas, frescas como um lírio que tresanda a espirros de outrém bem-vindo.
Embaraçado, o caixote do lixo pediu-me desculpa e fechou a boca. Ficou vazio de palavras, cheio de tesão nas beiças verdes largas. E então envergou-se. Vergou-se. Derreteu e vendeu-se ao chão - miserável o cabrão. Desleixou-se ao cair em si, atirando-se para dentro e não encontrando saída aberta.
A direcção dos caminhos opostos é complicada. Fico desnorteado pela estrada que conduzo e escrevo - eventualmente numa rua envenenada por fora - e decido pôr creme nas costas para acalmar a pele. E no meio disto tudo pergunto-me porque é que sobem montanhas sem pés. Só com braços e pescoço para se inteirarem do que se passa do outro lado da parede crua. Sentem corpos nus a roçar nos cantos frios da sala, gemidos que atormentam o lugar íntimo de uma mulher. Qualquer.
À vida que gira em torno da sedução porque somos todos criaturas sedutoras. Passamos a vida a pedir atenção. Ajoelhamo-nos para que reparem em nós e não conseguimos deixar de rir quando nos respondem finalmente. Eu transpiro sexo. Eu preciso de sexo. Ninguém vive sem SEXO. E quem vive, vive ao lado.
Era uma vez um caixote de lixo meio vazio de coisas, estranhas, dos outros. Deu-me os bons dias e despediu-se com um sorriso envergonhado. À sua frente, não estavam nem cadeiras nem frigoríficos antigos. Nem facas usadas, nem latrinas. O exterior cheirava a rosas (?) e pedia para ser incomodado e abraçado. As rodas traseiras estavam oleadas, frescas como um lírio que tresanda a espirros de outrém bem-vindo.
Embaraçado, o caixote do lixo pediu-me desculpa e fechou a boca. Ficou vazio de palavras, cheio de tesão nas beiças verdes largas. E então envergou-se. Vergou-se. Derreteu e vendeu-se ao chão - miserável o cabrão. Desleixou-se ao cair em si, atirando-se para dentro e não encontrando saída aberta.
A direcção dos caminhos opostos é complicada. Fico desnorteado pela estrada que conduzo e escrevo - eventualmente numa rua envenenada por fora - e decido pôr creme nas costas para acalmar a pele. E no meio disto tudo pergunto-me porque é que sobem montanhas sem pés. Só com braços e pescoço para se inteirarem do que se passa do outro lado da parede crua. Sentem corpos nus a roçar nos cantos frios da sala, gemidos que atormentam o lugar íntimo de uma mulher. Qualquer.
À vida que gira em torno da sedução porque somos todos criaturas sedutoras. Passamos a vida a pedir atenção. Ajoelhamo-nos para que reparem em nós e não conseguimos deixar de rir quando nos respondem finalmente. Eu transpiro sexo. Eu preciso de sexo. Ninguém vive sem SEXO. E quem vive, vive ao lado.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Boca por turnos
Sucar alvitrando o peso dos números em numeração romana, provinciana, sucata de peças esquecidas, desconhecidas por ninguém; alguém que solte cordas de pêlo morto e beba o leite da vaca que pasta no meu campo, aberto a todos mas vazio como a cabeça de um alce cansado dos cornos. Conversa cravada no cravo espinhoso do animal desavergonhado que come pasta amarela para endurecer o pote de verga escura. Folhas brutas ao sol. Pancadaria por um mil folhas. Polícia presa na liberdade dos outros; atropelada pela psicologia das emoções dos transeuntes conscientes da dimensão do céu. Poderei esquecer o rugido que afugenta o espírito e condena os outros a uma fuga impossível, a um espaço pequeno?
O milionésimo
quando virou à esquerda
e entrou na direita
encontrou-se numa colina dura
num riacho curto
numa casa habitada
num anfiteatro ocupado
pede pés suculentos de poeira
narinas sujas de giz
joelhos grossos
que sabe que existem
pela simples existência inerente
pela respiração calma
reflectida
pelo suor que escorre
no corpo feito de tinta
pobre augúrio de cigarras
corrigidas ao som do maestro
como flores de cera quente
enxuvalhadas num copo doce
altas penedias
baixos abismos
talvez o milionésimo de segundo
que antecede a morte
seja o único semelhante a todos.
e entrou na direita
encontrou-se numa colina dura
num riacho curto
numa casa habitada
num anfiteatro ocupado
pede pés suculentos de poeira
narinas sujas de giz
joelhos grossos
que sabe que existem
pela simples existência inerente
pela respiração calma
reflectida
pelo suor que escorre
no corpo feito de tinta
pobre augúrio de cigarras
corrigidas ao som do maestro
como flores de cera quente
enxuvalhadas num copo doce
altas penedias
baixos abismos
talvez o milionésimo de segundo
que antecede a morte
seja o único semelhante a todos.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Vasquinho à janela (continuação)
Quando o senhor de camisa acertada acenou, o Vasquinho assustou-se e esgueirou-se para debaixo da cama. Questionava-se porque estaria um senhor de camisa lisa, sentado num cadeira suspensa no nada, mesmo em frente à sua janela. Isto porque sempre que pergunta à mãe - "e hoje já posso voar?", acaba por se resignar à sua condição demente e acaba o dia deitado de pernas para o ar a olhar para o tecto. E, agora, mesmo em frente à janela do seu quarto, está um senhor com sobrancelhas farfalhudas, a pedir solenemente para falar com ele.
- "Talvez só quer bricar comigo", pensou o Vasquinho. E assim saiu devagar do esconderijo forçado e aproximou-se da janela.
- Ora viva, meu bom rapaz!
- Olá!
- Sabes o que é que acontece quando pensamos muito numa coisa?
- Não.
- Nada.
- Mas afinal quem é o senhor?
- Eu sou o Vasco.
O Vasquinho não conseguiu esconder a contentação por saber que o senhor tinha o mesmo nome que o seu e deu pulos de alegria.
- Temos o mesmo nome!
- Eu sei.
- Como é que sabe?
- Eu sou tu.
- Eu? Tu? Quem? Eu?
Os gritos da mãe ouviram-se em todos os cantos da casa. Parecia zangada porque a loiça suja do almoço continuava por lavar. Resignado, o rapaz despediu-se do Vasco e fechou a janela.
(continua)
- "Talvez só quer bricar comigo", pensou o Vasquinho. E assim saiu devagar do esconderijo forçado e aproximou-se da janela.
- Ora viva, meu bom rapaz!
- Olá!
- Sabes o que é que acontece quando pensamos muito numa coisa?
- Não.
- Nada.
- Mas afinal quem é o senhor?
- Eu sou o Vasco.
O Vasquinho não conseguiu esconder a contentação por saber que o senhor tinha o mesmo nome que o seu e deu pulos de alegria.
- Temos o mesmo nome!
- Eu sei.
- Como é que sabe?
- Eu sou tu.
- Eu? Tu? Quem? Eu?
Os gritos da mãe ouviram-se em todos os cantos da casa. Parecia zangada porque a loiça suja do almoço continuava por lavar. Resignado, o rapaz despediu-se do Vasco e fechou a janela.
(continua)
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