quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Verde trópico
loucos varridos
do rapaz-tordo
outrora capitão de uvas bravas
conta a boca do falatório gordo
Estêvão passeava de burro – acolá
atrelado aos seios amarelos
da prostituta de corpo em chama
outrora mulher de arroz
massemba de cama.
cacimba
dança das carnes
sujas de vodka
e carentes de sal
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
“Sim…sim!” E.M. de Melo e Castro
o poeta é a merda do universo: possui todas as características do dejecto. Concentra em si a digestão do gesto; a genofagia do êxtase; a plasto_contracção do fluído; a cagoécia espan_torreica do astro; a feno_inflação do susto; a culo_táctica alviltrante do entre; a conges_tomatia da fúria; a subru_ptura do esfincter; a tirano contúcia do tesão; a espro_tuberância dos dedos; a ultra_fragância cliotoriana da nuvem; a proto_putática do cio; a venusiana contursão do ingesto; o factócio odor da pituito_gonoraica alga; a fundibular arrogância do ronco; a inco_butência lacunar do humor; a factoécia consistência da cístole; o infrutífero agosto do genefágio; o estro da alti_contur_bância da bacia;a penis implacência da pes_nínsula; a fictofinura insinular da inflo_strutura; o oginato fulgor do anão anal; a para_pirotécnica do sobre; a ficta inflogestão do gestual subje_ctinvo; o adjecto fragor do estrondo; a fúricaarragância do cilindro; a exalo ternura da ubstância mole; o facto falância mulhada; o duro durão do melotão; a igno rrância das bactárias; a ultra pante_rroico fulminância; a coiso coisíssima nenhuma.
http://www.truca.pt/raposa_textos/poesia_34_melo_castro.html
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Relógios Falantes
Imortalidade
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
sal
nem que me gritem ao ouvido
não sou boca, nem cal,
nem cabeço fingido.
à pátria queimada,
à voz calada pujante
cedo o meu amargo corpo
terrestre etéreo viajante.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
O espelho, embelezado por uma clássica moldura em ferro, estava encostado a uma parede fria, pouco conversadora. Todos os dias, mais do que uma vez, perguntava ao reflexo “E eu? Como sou?” mas, todos os dias, o reflexo não o ouvia ou fingia que não ouvia. Sentia-se só e desprezado.
Um dia, o espelho enervou-se. Embaciou-se de raiva e afugentou o reflexo reflectido em si, bem como a sua pele macia, os seus olhos castanhos e os seus lábios carnudos.
Apesar de viver no lado do não-reflexo, o espelho queria acreditar que era mais do que um objecto sem corpo. Imaginava-se espadaúdo e musculado, com uma aparência própria, só sua.
Até ao dia em que o espelho arranjou a solução para o seu problema. Mesmo sabendo que o frigorífico, além de glutão, era grosseiro com toda a mobília da casa decidiu arriscar. Pediu-lhe delicadamente para andar dois passos para a sua direita. E assim que se aproximou, contrariado, o espelho apareceu reflectido na superfície branca do frigorífico. Não queria acreditar no que vira. Era impossível! Só podia! Estava virado do avesso, com uma peúga na cabeça e cabelos pretos nos pés. Cerrou os olhos, tombou para trás e nunca mais se levantou.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
meio-cadáver
comprimindo o arrepio
mas o acto não abafou
o autêntico desafio.
pois o lábio entorpecido
paralisado e amortecido.
foi incapaz de envergonhar
aquele frio abrutecido.
o tempo não cessava
e a paciência da velha açulava
“mas que raio vem a ser isto?”
perguntou exaltada.
enfiou outra malha
de cor negra, desarranjada
mas a mão enregelada
correu o corpo, agitada.
“mas que merda vem a ser esta?”
gritou para o espelho, embaciado,
e o espelho nada fez
senão mostrar-se desinteressado.
eu que olho para a velha
aflige-me a sua dormência
basta a chaga amargurada
chega o estado de latência.
