terça-feira, 9 de março de 2010
Complexo canibal
Aquando o tempo o permitiu,
Regaram com mel, cheiro vício sexual
O clítoris em círculos ainda frio
E os cheiros côncavos, propensão carnal
Desce a língua indiscreta abaixo da cintura
Perdendo-se na púbis, pantanal escritura
No final já era só dormência
húmida volúpia labial
anal, trémula consciência
Regaram com mel, cheiro vício sexual
O clítoris em círculos ainda frio
E os cheiros côncavos, propensão carnal
Desce a língua indiscreta abaixo da cintura
Perdendo-se na púbis, pantanal escritura
No final já era só dormência
húmida volúpia labial
anal, trémula consciência
Sexo Nosso que estais na Terra,
santificado seja o vosso santo copulatório,
venha a nós clítoris o vosso êxtase,
seja feita a vossa vontade
assim no espaço como no tempo.
A penetração nossa de cada dia nos daí hoje,
perdoai-nos os órgãos retesados,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem pisado os mamilos,
e deixai-nos cair em tentação
(no inferno na Terra)
Mas livrai-nos do mal.
Ámen.
Kublai – Tudo é inútil, se o último local de desembarque tiver de ser a cidade infernal, e é lá no fundo que, numa espiral cada vez mais apertada, nos chupar a corrente.
E Pólo: - O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir, se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos aos estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.
Calvino, in “As Cidades Invisíveis”, 5ª edição, página 166, Editorial Teorema.
o crime
Ah! Herodes choraria de pena se tivesse escrito a Bíblia e como se comoveram os negreiros que tenham tido a ventura de ler "A Cabana do Pai Tomás! ou os que modernamente virm a versão de celuloide! Sensibiliza-nos mais a ilusão do que a própria realidade! Choca-nos um filme ou um livro sobre a miséria e a fome, que passam indiferentes ao nosso lado. Que verdade há na descrição da morte de um homem soterrado numa mina se não estamos com ele e a sua dor se encontra tão distante? Começo a deitar abaixo as prateleiras cheias de livros e rasgo-os enchendo o quarto de páginas que esvoaçam...
- Mentiras! Tudo mentiras! Vendilhões! Comerciantes!
Ah! Que sei eu do que escrevo? Falhei! Sonho que agrido o editor e o vendedor de livros com uma pesada encadernação do Gil Blas Santillana que nada vale a não ser a brochura e que os meto à força no meio de uma edição folhetinesca capaz de fazer chorar as pedras. Para conhecerem bem o que editam vão ser comidos pela traça e eu divirto-me a ouvi-los prometer gordas edições ilustradas e o melhor lugar nas prateleiras das livrarias. Depois agarro numa caixa de fósforos decidido a arder em bonzo, quando me surge a ideia. Por que não? Fecho a porta do quarto, desço as escadas a correr e saio para a rua. Pego no meu manuscrito que nunca abandono pondo-o como isca na beira da calçada. Deixo-o aberto e escondo-me no vão da escada. Por Deus! Ah! Que longa espera! Até que ele chega... sim! E como me despreza! Levanta o manuscrito do chão e folheia-o indiferente, atirando-o depois de novo para o solo. Salto do vão da escada e caio-lhe raivoso em cima! Oh!, Céus! Odeio-o! Odeio-o! Sinto a ferida que o aguilhão da indiferença e do desdém me abre na carne e, não podendo mais, deito-lhe a mão ao pescoço e estrangulo-o quando só desejava que ele reparasse em mim!...
Desço lentamente até ao chão de joelhos e pego fogo à roupa. Ao arder, choro amargamente arrependido.
- Oh! Meu Deus! Que estúpido sou! Agora que matei o leitor que gesto inútil não é suicidar-me?
Miguel Barbosa, in "Esta Louca Profissão de Escritor", páginas 36 e 37, Colecção Passo a Palavra, Livraria Ler Editora
as cidades contínuas
«Todos os anos nas minhas viagens paro em Procópia e fico alojado no mesmo quarto da mesma pensão. Desde a primeira vez, detenho-me a contemplar a paisagem que se vê abrindo a cortina da janela: um fosso, uma ponte, um muro, um sorbeira, um campo de milho, uma sebe com amoras, uma capoeira, um cume de colina amarelo, uma nuvem branca, um pedaço de céu azul em forma de trapézio. Tenho a certeza de que da primeira vez não se via ninguém; foi só um ano depois que, a seguir a um movimento por entre as folhas, consegui distinguir uma cara redonda e achatada que roía uma maçaroca. Passado um ano já eram três em cima do muro, e ao meu regresso vi seis, sentados em fila, de mãos nos joelhos e umas sorbas num prato. Todos os anos, assim que entrava no quarto, levantava a cortina e contava mais algumas caras: dezasseis, incluindo os que estavam dentro do fosso; vinte e nove, dos quais oito empoleirados na sorbeira; quarenta e sete sem contar os da capoeira. São parecidos, têm um ar simpático, de borbulhas nas bochechas, sorriem, um ou outro com a boca suja de amoras. Em breve passei a ver toda a ponte cheia de tipos de cara redonda, agachados porque já não tinham sítio para se mexerem; trincavam as maçarocas, e depois roíam os talos.
Assim, anos após ano, fui vendo desaparecer o fosso, a árvore, a sebe, ocultos por barreiras de sorrisos tranquilos no meio das bochechas redondas que se movem mastigando folhas. Não se faz ideia, num espaço pequeno como aquele minúsculo milheiral, de quanta gente pode caber, especialmente se estiverem sentados de braços à volta dos joelhos e imóveis. Deve haver muitos mais do que parece: o cume da colina vi-o eu cobrir-se de uma multidão cada vez maior; mas desde que os da ponte ganharam o hábito de se porem às cavalitas uns dos outros nunca mais consegui ver mais nada para além deles.
Este ano, finalmente, ao levantar a cortina, a janela enquadra apenas uma extensão de caras: de um canto ao outro, a todos os níveis e a todas as distâncias, vêem-se estes rostos redondos, quietos, muito achatados, com um esboço de sorriso, e no meio muitas mãos, que se agarram aos ombros dos que estão à frente. Até o céu desapareceu. Mais vale afastar-me da janela...
Não por me ser fácil mexer-me. No meu quarto estamos alojados vinte e seis: para deslocar os pés tenho de incomodar os que estão acocorados no chão, abro caminho por entre os joelhos do que estão sentados no baú e os cotovelos dos que estão na vez de se encostarem à cama: tudo pessoas muito simpáticas, felizmente.»
Italo Calvino, in "As Cidades Invisíveis", 5ª edição, páginas 148 e 149, Editorial Teorema.
terça-feira, 2 de março de 2010
O homem sem nome
Hoje olha para trás e instintivamente abana a cabeça, pensando o quão ignorante foi por nunca ter pensado que a vida nasceu do ventre de uma prostituta. A ele, é escusado dar-lhe um nome. Prefiro mantê-lo no anonimato, escondido atrás de uma árvore ou preso num sótão de alguém que ainda não conheci e que talvez nunca virei a conhecer.
Mas dizia eu que para ele a vida é filha da prostituição, do saque, da amotinação. E não foi à toa que ele chegou a esta conclusão, pois ela era bela, instável e chupadora. Trazia resquícios de vinho nos lábios gretados e quando tossia, tentava inconscientemente expulsar o mal que a impedia de cortar a artéria umbilical. Nunca se soube como se conheceram, nem mesmo eu, mãe literária. Apenas que faziam amor em público, como crianças ousadas que anseiam o doce mel, o mais distante, o impossível e que gemiam e gritavam em praça pública palavras ordinárias que sem querer (e sem dever) feriam a audição beata, animal de hábitos.
Com o passar do tempo, ele transformou-se objecto de falatório público, tema rotineiro de conversa e rapidamente tomou as cores do nada, carente de pele e osso, escravo da transparência. Até ao dia em que ela fugiu, carregando consigo os seus sentidos, sonhos de infância, as virtudes e ócios de uma vida. O calor da vergonha abalou a cidade rubra. Hoje já ninguém fala dele, ficou enterrado no âmago de uma geração que preferiu esquecê-lo, passou de ninguém para ser nada.
Já eu, mãe-criadora, prefiro continuar a escrever sobre ele, mesmo não lhe dando um nome.
Mas dizia eu que para ele a vida é filha da prostituição, do saque, da amotinação. E não foi à toa que ele chegou a esta conclusão, pois ela era bela, instável e chupadora. Trazia resquícios de vinho nos lábios gretados e quando tossia, tentava inconscientemente expulsar o mal que a impedia de cortar a artéria umbilical. Nunca se soube como se conheceram, nem mesmo eu, mãe literária. Apenas que faziam amor em público, como crianças ousadas que anseiam o doce mel, o mais distante, o impossível e que gemiam e gritavam em praça pública palavras ordinárias que sem querer (e sem dever) feriam a audição beata, animal de hábitos.
Com o passar do tempo, ele transformou-se objecto de falatório público, tema rotineiro de conversa e rapidamente tomou as cores do nada, carente de pele e osso, escravo da transparência. Até ao dia em que ela fugiu, carregando consigo os seus sentidos, sonhos de infância, as virtudes e ócios de uma vida. O calor da vergonha abalou a cidade rubra. Hoje já ninguém fala dele, ficou enterrado no âmago de uma geração que preferiu esquecê-lo, passou de ninguém para ser nada.
Já eu, mãe-criadora, prefiro continuar a escrever sobre ele, mesmo não lhe dando um nome.
auto-biografia
escrevi uns versos
no outro dia
mas talvez por rebeldia
ou débil anatomia
os versos não rimaram.
estaria assim tão vazia,
sem ossos e em agonia,
que nem uma simples palavra
do ventre me saia?
então de frente para o púlpito implorei:
“devolvam-me a anestesia,
o sexo, a ousadia
pois anseio o dia em que direi:
deitei-me com a poesia
ajoelhada de costas
que nem uma vadia.
aqui tens a minha auto-biografia”
no outro dia
mas talvez por rebeldia
ou débil anatomia
os versos não rimaram.
estaria assim tão vazia,
sem ossos e em agonia,
que nem uma simples palavra
do ventre me saia?
então de frente para o púlpito implorei:
“devolvam-me a anestesia,
o sexo, a ousadia
pois anseio o dia em que direi:
deitei-me com a poesia
ajoelhada de costas
que nem uma vadia.
aqui tens a minha auto-biografia”
As paredes
Foi quando o vi sair da cama, envolto pelo odor do seu sexo selvagem, agora mais envergonhado, que me apercebi do quanto preciso dele para me levantar de manhã. Anulo-me à minha nulidade e enquanto o escrevo os dedos tiritam de alegria e os pulmões espreguiçam o ar que dele inspiro. Não intencionalmente (ou o que é costume pensar-se), o clímax invadiu os ouvidos vizinhos, recolhidos atrás das paredes que poderão ser consideradas tudo, menos surdas-mudas. Mas desta vez até elas preferiram cerrar os olhos e os ouvidos, respeitando o gemido, o limar de unhas, a combustão do útero. Porque desta vez o sexo era natural, era preciso, enquanto expressão crua do acto mais belo celebrado entre qualquer espécime humano.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
alçapão
Naqueles tempos o trilho era apertado até para o corpo mais ágil. Então vieram os alardos apetrechados de tratores de guerra que derrubaram os bastardos escanzelados, de boca seca. Dos areões ouviam-se os urros, os cartuchos, a paisagem fosforescente dos sargaços, tantos bagaços enfim retesados e em plena brenha especiosa o javali amanhado e a moça prenha à luz da sofreguidão. Venham noites de ócio cantar à minha beira. O canto dos mandarins já não é meu e não me ralo com isso.
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