quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

circo de zebus

Da mesma maneira que o sangue da noite estancou, a alma em flecha e o circo chegou à cidade. A tenda amarelo amendoim desmaiada pelo sol, qual testa que esbarra contra o chapéu do ilusionista e uns quantos lémures no apêndice vermelho-coral. A arena vestida de camelo e descuidadamente suspensa no ar atiça os dentes do zebu que por terem sido serrados à pressa pelo veio da navalha reproduzem em câmara lenta as mãos da criança cravadas nas pregas vincadas do vestido em forma de leque. Xeque-mate! Os malabaristas estátuas, em pose vigilante, de cócoras vergados, como se esperassem as planícies fátuas aguadas de tesão. É a vez do ruído das rodas da jaula octogonal rutilante, do vapor menta-hortelã, das narinas rectas e peganhentas. Plateia muda, apenas o rumorejo dos zebus que só pensam em andar ao verde. E nisto, tromba erecta derruba bancadas e expressões esfrangalhadas. Chamam por Vénus vezes sem vez e o que vêem são esquinas de boca esbranquiçadas. (o elefante entra em cena); o circo não mais tornou a ser o mesmo, tomou posse da carne da viúva, do aleijado, do cabrito desdentado, encabritando-se em confrontos de braço de ferro, cuja violência se assemelha à natureza do homem. Poder-se-ia perguntar: e o servo inútil?, e aí sim, ouvir-se-ia, com uma voz rouca e encrespada: Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores. Aí haverá choro e ranger de dentes. Palavra da salvação. Ámen.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

kubaza

planície casca de laranja (Octávia) cidade teia de aranha

Faltou-lhes bengala entre as... Barrete! Fugiram com a massambala e a bunda entre as pernas, andar trôpego entupido, marufo que escorrega, desinibido, ponto de fuga, sugado, sanguessuga arame farpado choramingou um tipo fajuto derrotado.
Voltaram quando deixaram de acreditar em alunagens. Em paisagens púrpuras, moinhos de vento tricotados em lã, esculturas esculpidas, rebuçados de cobre e arre! sou filho da puta e se me sento jamais me levanto e se me deito jamais adormeço na minha despensa conservada trancada à chave ao lado de atuns e desnatados.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Folhadão de Frango com Caril

Ingredientes

- 4 peitos de frango
- 1 cebola grande
- 2 dentes de alho
- cogumelos portobello (uma embalagem)
- 1 pimento verde
- 1 pimento vermelho
- margarina
- sal
- gengibre
- orégãos
- açafrão das índias
- pimenta preta
- duas colheres de sopa de caril
- limão
- natas porcini
- massa folhada congelada
- gema de ovo
- pedacinhos de bacon fritos

Preparação do recheio

Antes de mais, pré-aquecer o forno a 200º C.
Cozem-se os peitos de frango num tacho e adiciona-se sal. Num almofariz, esmagam-se os dentes de alho, sal, pimenta, caril, sumo de limão, orégãos, açafrão das índias e gengibre. Numa frigideira grande, derrete-se um pouco de margarina e a cebola picadinha e deixa-se alourar. Juntam-se os pimentos cortados em tirinhas, os cogumelos portobello e a papa anterior envolvendo-se tudo com muita paixão. Depois, acrescenta-se o frango já desfiado e rectificam-se os temperos (sal , pimenta moída no momento e caril). Por último, adicionam-se as natas porcini.

Preparação da massa

Forrar uma forma (redonda, de preferência) com metade da massa folhada, espalhar o recheio ainda morno e cobrir com a massa restante. Por último, pincela-se agema do ovo, adicionam-se os pedacinhos de bacon frito e vai ao forno por 20 minutos. Delícia!

Receita de: Anocas Ardente

Verde trópico

violai os ossos
loucos varridos
do rapaz-tordo
outrora capitão de uvas bravas
conta a boca do falatório gordo

Estêvão passeava de burro – acolá
atrelado aos seios amarelos
da prostituta de corpo em chama
outrora mulher de arroz
massemba de cama.

cacimba
dança das carnes
sujas de vodka
e carentes de sal

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

“Sim…sim!” E.M. de Melo e Castro

o poeta é a merda do universo: possui todas as características do dejecto. Concentra em si a digestão do gesto; a genofagia do êxtase; a plasto_contracção do fluído; a cagoécia espan_torreica do astro; a feno_inflação do susto; a culo_táctica alviltrante do entre; a conges_tomatia da fúria; a subru_ptura do esfincter; a tirano contúcia do tesão; a espro_tuberância dos dedos; a ultra_fragância cliotoriana da nuvem; a proto_putática do cio; a venusiana contursão do ingesto; o factócio odor da pituito_gonoraica alga; a fundibular arrogância do ronco; a inco_butência lacunar do humor; a factoécia consistência da cístole; o infrutífero agosto do genefágio; o estro da alti_contur_bância da bacia;a penis implacência da pes_nínsula; a fictofinura insinular da inflo_strutura; o oginato fulgor do anão anal; a para_pirotécnica do sobre; a ficta inflogestão do gestual subje_ctinvo; o adjecto fragor do estrondo; a fúricaarragância do cilindro; a exalo ternura da ubstância mole; o facto falância mulhada; o duro durão do melotão; a igno rrância das bactárias; a ultra pante_rroico fulminância; a coiso coisíssima nenhuma.

http://www.truca.pt/raposa_textos/poesia_34_melo_castro.html

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Relógios Falantes

Nos relógios falantes encontram-se dialogando o relógio das Chagas e o de Belas, ambos a consertar no serralheiro. As suas considerações constituem também uma censura aos costumes do tempo, dos validos, da moda, etc. Por fim, o tom é mais grave, e fala-se na velhice e na morte.
Relógio da Aldeia. Senhor Relógio da Cidade, badalemos limpo, que as paredes ouvem, e as de campanários nunca foram de segredo.
Relógio da Cidade. Olhai ora cá: se o estar sempre à dependura me não me há-de valer para tirar o medo de não morrer enforcado, melhor é acabar logo por ua vez!
R.A. Cal-te, que te fundirão!
R.C. Pois que importa? Farão de mim campainhas, e então lhes direi por cem bocas o que não querem ouvir de ua. Par Deus! mas que me fundam, mas que me confundam, eu hei-de tanger sempre a verdade!
R.A. Por isso tu cá vens por mentiroso. Diz que a verdade, na língua dos que a não falam, e como a água do Chafariz de El-Rei, que, por correr por canos de enxôfar, sempre faz mal ao fígado.
R.C. Fígados há aí tão danados, que da água pura e clara fazem peçonha.
R.A. E tu, amigo, que ganhas em desenganar o mundo, que se não quer desenganar? O sumo grau da sandice é perder-se um pelo ganho do outro.
R.C. É nobreza de coração, e ainda proximidade, não deixar perseverar a ninguém no seu engano.
In Relógios Falantes, de D. Francisco Manuel de Melo, escritos de 1654 a 1657.
Ao contrário da maioria das raparigas do seu tempo, Luísa nunca quis casar. Desprezava a ideia do amor oficializado, burocrático, guardado numa prateleira conspurcada pela traição e pelo egoísmo. Na juventude, aprendeu desde cedo a amar o corpo, em todas as suas formas, e a respeitar a natureza carnal do homem. E sempre que o vento trespassava o tecido delicado da saia rodada e lhe atiçava o sexo masturbava-se, roçando as pernas devagarinho.
Nunca foi mulher de um, mas de muitos. Era raro o homem que não se deixava seduzir pela sua figura voluptuosa e carnal. Os olhos ligeiramente descaídos na ponta e os seios gordos e firmes sussurravam tesão ao ouvido de sexos duros. Luísa perdeu a virgindade com um rapaz, filho de um soldado das ex-colónias.

Imortalidade

No céu, cavalos brancos com pernas longas lutavam exaustivamente com o vício que lhes apontava o dedo. Ouvia-se o sopro de um homem que se ergueu nu no topo de um relógio, segurando na mão uma cruz de madeira. Luísa estava no centro do altar presa a uma criatura miúda e frágil, com orelhas entrançadas e seios minguados. Verteu no copo línguas de uvas pisadas e juntou as mãos em sinal de oração. Trazia vestido um traje medieval, com uma corda atada à cintura. No cimo do monte, um caixão dourado, reluzente, com duas cabeças tortas dentro e “IMORTALIDADE” inscrita num dos lados do caixão. Da sombra, assomou uma linda mão de mulher que lhe esmagou o crânio até este dar sumo.
Luísa acordou em sobressalto e olhou para o relógio na mesa-de-cabeceira que marcava as cinco da manhã. Observava fixamente o tecto amarelado, entristecido pela humidade do Inverno passado. Abriu a boca quase selvagemmente e alongou o pescoço de forma desengonçada como se acordasse pela primeira vez.
"Com onze canecas de cerveja e sete gins brincando às escondidas no bucho, caiu do primeiro degrau e só parou lá em baixo. (...) Era a noite de sábado, o melhor, o maior, o mais alegre pedaço da semana, um dos cinquenta e dois feriados na roda lenta do ano, um violento preâmbulo para um domingo de prostação. Paixões acumuladas estoiravam na noite de sábado, e os efeitos de uma monótona semana de trabalho nas fábricas eram expulsos do corpo em explosões de euforia. Seguia-se a grande máxima «bebe e diverte-te», deixavam-se os braços nodosos apertados em torno de uma cintura feminina e a cerveja a deslizar beneficamente pela garganta a baixo, direita à capacidade elástica do estômago."
In Sábado à noite e domingo de manhã, de Alan Sillitoe

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009